quarta-feira, 6 de abril de 2011

B A N C A R R O T A

Pronto, é oficial! O segredo mais mal guardado dos últimos tempos foi desvendado: estamos na bancarrota.

Ainda o ainda primeiro não tinha acabado de falar e já o ainda-não-mas-em-breve primeiro  botava discurso: "Não é hora de atribuir culpas...", blá, blá blá. Discordo completamente (o que não é de estranhar). Acho que não só é a hora de atribuir culpas como é essencial fazê-lo.

Comecemos por aqui há 30 anos atrás. Sabem qual era a grande moda económica da época? Muito simples: privatizar. O país tinha passado dum PREC para um PPEC (Plano de Privatizações em Curso). Tudo aquilo que cheirasse a lucro tinha de ser privatizado. Lembro-me de estar numa mesa de almoço com alguns colegas e comentar "não percebo porque é que se tem de privatizar tudo o que dá lucro..." e não conseguir acabar o meu raciocínio porque alguém me interrompeu: "cá pra mim é muito simples: privatiza-se tudo" (risos)... Era este o espírito, privatizar, privatizar, privatizar (muitas vezes a bom preço... para quem comprava). Era fixe, estava na moda e não havia lugar para contestação (eu que o diga). É claro que, depois de privatizar tudo o que dava lucro e ficar com tudo o que dava prejuízo o Estado tinha de ir buscar mais receita... aos impostos... Nessa altura, inventaram as parcerias público-privadas (era então 1º ministro um tal Cavaco Silva, não sei se conhecem), que se revelaram ruinosas para o público e autenticas minas de ouro para os privados.

Esta receita só podia levar a uma situação: total desequilíbrio nas contas do estado. Foi quando, os mesmos arautos das privatizações, primeiro, e das PPPs, depois, atacaram noutra frente: o estado está muito gordo, é preciso emagrece-lo! Eu até concordaria se o emagrecimento passasse pelo fim das ruinosas PPPs, pelo despedimento com justa causa dos boys (rosas ou laranjas tanto me faz), pela racionalização de serviços, e utilização parcial dos recursos libertos na melhoria do essencial: saúde, segurança, ensino, justiça... Mas não é isso que se pretende. A ideia passa por retirar o estado de certos sectores (ensino para começar, saúde a seguir e por aí adiante até termos polícias privadas), de forma a fazer lugar para mais privados fazerem negócio e fortuna à custa do Zé! Nalguns casos com o estado a pagar a privados aquilo que devia estar a fazer e que, entretanto se liquida (vejam os planos do PSD para o sector do ensino). Dizem eles que vai ficar mais barato!!!! Não diziam o mesmo das PPPs?


E assim, alegremente, foi-se estrangulando, o estado e os serviços públicos. De caminho, inventou-se os contratos a prazo, reviu-se, várias vezes, a legislação laboral, sempre no mesmo sentido anti-trabalhador, promoveu-se a precariedade como algo muito dinâmico (!!!) e óptimo para a economia. Claro que, entretanto, matou-se a galinha dos ovos... de prata (os de ouro já tinham sido roubados por uma empresa off-shore). É que, sem dinheiro nos bolsos, trabalhador compra menos, paga menos imposto, as empresas vendem menos, têm menos lucro, pagam menos imposto... et voilá!

Este triste fim era inevitável com estas políticas. É claro que, os buracos sem fundo do BPN e do BPP, o ataque nojento dos especuladores (internacionais e não só) ajudados pelas tenebrosas agências de rating, a vergonhosa atitude dos bancos, tudo isso "ajudou". Mas com estas políticas, este fim era inevitável. Se não atribuirmos culpas e mudar-mos de caminho.... Qualquer dia vamos ser uma economia pujante... assim como a chinesa... pelos mesmos tristes motivos.