Faltava pouco para as 9h dum dia de semana quando entrei numa agência, dum dos maiores bancos privados portugueses. E, logo à entrada, a 1ª contrariedade! Das 4 caixas, só a do lado esquerdo estava a atender clientes, que já formavam uma bem-comportada bicha até meio da sala. Resignado tomei o meu lugar.
Na caixa da ponta direita estava sentado um funcionário com ar descontraído, a ler um folheto. Não sei porquê, dei comigo a imaginar a mesma cena mas numa repartição de finanças! “Mas você está a ver aquilo?!” disse-me o contribuinte imaginário por trás de mim; “Ali, sentadinho, a ler, todo satisfeito… E nós, à espera! Então não podia estar a atender as pessoas como a colega? Pfff, isto só visto”. Sorri-lhe e virei a minha atenção para a minha caixa. A funcionária estava a revelar uma eficiência inesperada, já só tinha dois “contribuintes” à minha frente. O que estava na frente avançou com ar decidido e entregou-lhe um gordo maço de notas, que fez o meu modesto cheque corar de vergonha. Ela pegou no maço e começou a dividi-lo em molhinhos que atirava para dentro duma daquelas máquinas de contar notas. Pior que tudo, na outra mão, ele tinha um envelope cheio de cheques… “Ai” gemeu o meu amigo contribuinte, “agora é que nunca mais saímos daqui!”
Já passava das 9 quando outra funcionária entrou na agência e tomou o seu lugar na caixa ao lado. O cliente à minha frente avançou e foi rapidamente atendido. Era a minha vez. Avancei, entreguei o cheque e o BI, “É para levantar”, disse… Ela baixou um olhar enjoado para o cheque, virou-se para o monitor, mexeu no rato, pegou no cheque, abriu a boca que fechou logo a seguir, quando viu que o cheque já estava endossado, agarrou no meu BI e começou a “ticar” os elementos de identificação no cheque. Devolveu-me o BI, pegou no cheque, voltou a “clicar” no rato, virou-se para o outro lado, enfiou o cheque numa daquelas maquinetas de leitura de banda óptica, bzzzt, meia volta, recuperou o cheque, virou-o de frente, olhou várias vezes para o monitor e para o cheque, enquanto parecia balbuciar baixinho, chegou-se à secretária e pousou o cheque. “É agora”, pensei eu, “Temos de esperar um pouco”, disse ela! Devo ter feito cara de parvo porque ela acrescentou com um meio sorriso “Eu já o chamo”.
Era a minha deixa para sair dali. Passei os momentos seguintes à procura dum lugar, na estreita sala, onde não fosse confundido com a parte terminal da solitária bicha que apontava às caixas. Quando o consegui pus-me a pensar no que se estaria a passar.
Hipótese 1-Por engano, tinham dado o meu cheque como roubado. Nesse caso, a funcionária devia ter accionado um alarme e, neste momento, já vinha a caminho, “ti-nó-ni”, uma carrinha com dois agentes da PJ. Dentro em breve eles iam entrar, um ficava à porta enquanto o outro se dirigia à funcionária. Ela faria um discreto sinal na minha direcção, o agente aproximava-se com cara de poucos amigos, “Agente fulano do FBI, quer dizer, da PJ, faça o favor de me acompanhar”, agarrava-me rudemente por um braço e, com a ajuda do colega, atirava-me para o banco traseiro da carrinha que partia disparada para a sede da PJ, onde eu ia passar o resto da manhã a provar a minha inocência! A menos que tropeçasse no juiz Rui Teixeira, caso em que passaria os 2 meses seguintes a tentar perceber do que era acusado. Ai, que me vou atrasar…
Hipótese 2-Pior um pouco. A conta tinha sido erradamente identificada como a de um perigoso bando de narcotraficantes internacionais. Nesse caso era o GOE e não a PJ que tinha sido chamado. Se calhar já estavam a tomar posições à volta da agência. Disfarçadamente, espreitei pela porta envidraçada. Tudo calmo. “Isso não quer dizer nada!” sussurrou o contribuinte por trás de mim. “Eles são muito discretos”.
Estes agradáveis pensamentos foram interrompidos ao ver que, a funcionária que me atendeu, tinha posto outro cliente em espera. Sorri ao ver o seu ar atrapalhado enquanto, tal como eu pouco tempo antes, procurava um sítio onde não fosse confundido com… vocês sabem o quê. Como tinha um ar um pouco mais façanhudo do que eu, atribui-lhe o papel de narcotraficante, reservando para mim o mais modesto de ladrãozeco de cheques.
Entretanto a funcionária estava a chamar-me. Aproximei-me, ela identificou-me pelo nome no cheque, pegou num maço de notas, usou uma maquineta para as contar e entregou-me o dinheiro. Algo desiludido por não ir conhecer nenhum agente do FBI-PJ-GOE, resolvi esclarecer a minha curiosidade. “Porque é que tivemos de esperar?” perguntei. “Porque eu não tinha dinheiro!”, respondeu ela. Devo ter feito cara de parvo outra vez porque ela voltou a pôr o meio-sorriso e explicou-me, “é que os nossos cofres são temporizados e eu tinha acabado de chegar”. Agradeci e saí.
Já na rua, o contribuinte veio atrás de mim. “Mas, você viu aquilo” disse-me ele com ar revoltado. “Mas dá para acreditar?” acrescentou sem me dar tempo de responder. “Então, fez-nos esperar aquele tempo todo pelo dinheiro, enquanto tinha, na caixa ao lado, um montão de notas!!!!”. “Sabe o que é que eles estão a precisar? De serem privatizados! Sim, sim! Se tivessem um patrão a olhar para eles nada disto acontecia, pode ter a certeza!”. Sorri-lhe, fiz-lhe um sim mental com a cabeça e apressei-me. 9:15! Gaita que estava mesmo atrasado.
Nota: para além dos agentes do FBI-PJ-GOP e do contribuinte, que não se costumam encontrar em agências bancárias, todos os outros pormenores desta história são verídicos.